Foram meses duros e de provação. As noites, sozinho no hospital, eram avassaladoras. Correu risco de vida, mas regressou inteiro à vida ativa e à ficção. Ângelo Rodrigues foi recebido por Cristina Ferreira, este sábado, numa conversa intimista e com muitas surpresas. Vem aí um telefilme de Golpe de Sorte, a 21 de dezembro na SIC, e um documentário sobre a recuperação do ator, no mesmo canal.

Deixou as moletas no próprio dia da entrevista e foi ali, no sofá da casa mais famosa do país, que abriu o coração e as suas memórias. “Tive dois meses no hospital em que não tive bem noção das repercussões que o meu caso teve cá fora”, começa por dizer, Ângelo Rodrigues internado que foi internado no final de agosto no Hospital Garcia de Orta, em Almada, com uma infeção na perna.

O início de tudo: A febre, os vómitos e o stress profissional

“Comecei a sentir que o meu corpo me estava a falhar. Estava com uma carga de trabalho enorme. A sentir febre, já estava com um princípio de anemia”, comentou o ator que confessou nunca ter partilhado o seu estado de saúde com alguém. Passou uma semana sem ir ao hospital. “Pensava ‘estou a sentir-me mal agora, mas ainda não vou ao hospital porque daqui a três dias vou melhorar’ [tomando os antibióticos]”, relembrou.

»» Depois do apoio de Iva Domingues, Ângelo Rodrigues confessa: "Nós tivemos uma história bonita"

Foi para as urgências e lá constatou que o quadro clínico era “péssimo”. Mandaram-no para casa com a sua autorização. ”Eu estava mesmo a terminar esse trabalho e ia ter férias a seguir, portanto ia ter tempo para mim, para recuperar e me recompor”, pensava o ator. Mas o corpo não cedeu e colapsou. “Sou a prova de que a vida pode ser um sopro”, assegura. O corpo médico explicou ao ator que tinha estado em coma induzido. “Pensei que estavam a brincar comigo”, contou. O ator teve uma septicémia (uma falência dos órgãos vitais) e permaneceu em coma durante quatro dias. “Há uma semana da minha vida que foi apagada da minha memória”, avança. Os amigos e família protegeram-no das notícias pouco animadoras que saíam na imprensa e que davam conta das suas sequelas e da eventual necessidade da amputação da sua perna.

“Só no último dia é que via as marcas no meu corpo”

Estive bem próximo de não estar aqui a falar contigo”, diz a Cristina Ferreira. Estive dois meses sem olhar para a minha perna. Só no último dia, quando tirei as ligaduras, é que vi as marcas que este acidente trouxe para o meu corpo. Havia algumas coisas que eu não queria saber porque também era muita informação. Mas não houve um segundo durante todo o tempo internado que eu achei que não ia conseguir”, afirmou o ator, que vi as pessoas que o visitavam com um ar consternado.

»» Ângelo Rodrigues mostra pela primeira vez a sua perna após infeção grave

Ângelo Rodrigues confessa pela primeira vez que foi submetido a sete cirurgias, só na sexta intervenção é que teve consciência que já ali tinha estado, no bloco operatório. “Abriram-me grande parte da perna. Eu tenho uma cicatriz enorme que vai até abaixo do joelho e precisaram de me fazer um enxerto de pele. Acabaram por retirar um pouco de pele do interior da coxa para a zona em que precisava. Houve várias semanas em que tomei quatro antibióticos”, comunica o ator de 32 anos.

As notícias cá fora , o papel dos amigos e o telemóvel longe das mãos

Pedro, amigo do ator, foi umas surpresas desta edição especial d’ O Programa da Cristina. Esteve todos os dias no hospital e um dia, com a família de Ângelo Rodrigues no carro, recebeu uma chamada dramática. Do lado de lá, diziam-lhe que o ator poderia ter falecido. Pedro fingiu que não era nada. Deixou a família em casa. E quando foi para o hospital, Ângelo não estava na cama. Temeu o pior. Mas afinal, o ator estava apenas a fazer um exame.

»» Ângelo Rodrigues faz piada sobre a sua própria morte: “Deixem-me só falecer em paz”

Os médicos aconselharam-no a não estar com o telemóvel por perto. Só passado um mês é que soube de algumas notícias que tinham saído e, ainda assim, ainda não teve aquele dia em que vai ler tudo. Optou por conscientemente não fazer essa escolha e focar-se nesta “segunda oportunidade”.

Um dos tratamentos que fez exigia a deslocação para outro hospital e foi nesse momento que um meio de comunicação social capturou imagens do ator numa maca, no seu momento de maior fragilidade. “O aproveitamento da debilidade é lamentável”, revelou o ator.

O regresso ao colo da mãe e o culto do corpo

»» Irmã de Ângelo Rodrigues está radiante: “Ele está de volta”

Na família nunca houve a verbalização dos afetos. “Sempre fui um pouco desnaturado,” comenta o ator. Em Lisboa, quis fazer vida sozinho e ia poucas vezes a casa. No hospital, a mãe e os irmãos estiveram sempre a seu lado. “Foi o primeiro esboço de família que tive na minha vida. Foi bonito e comovente porque, de repente, tinha a família em peso, num momento de aperto. Senti que, pelo facto de estar brutalmente limitado fisicamente, e debilitado, precisava de uma ajuda mais próxima”, disse o ator que, antes vivia com amigos. “Neste momento, estou a viver com a minha mãe durante dois, três meses. Voltei para o colo dela”, confidenciou. Nestes meses, foi ela quem o ajudou a vestir-se, a limpar-se e a fazer a cama.

»» Após alta hospitalar, dezenas de famosos mostram apoio a Ângelo Rodrigues

Ângelo Rodrigues fez questão de frisar que o ginásio e o desporto eram uma componente positiva na sua vida e que ajudaram a contrariar o que viveu na adolescência.”Era muito magrinho, tinha uma autoestima bastante baixa e não gostava do que eu via ao espelho. Sofri, de facto, bullying durante três anos da minha vida. Essa é a minha maior luta. Viver em paz com a minha autoimagem, ter consciência que o meu corpo nunca mais vai ser o mesmo, mas que é só uma questão estética”, sublinhou.