Andreia Guerreiro

João Parreira

João Parreira

João Parreira foi um dos concorrentes da primeira temporada do Hell’s Kitchen Portugal, da SIC, que mais deu que falar pelos pequenos ‘ódios’ que foi criando ao longo do programa com colegas que nem sempre acreditaram nas suas competências. Numa conversa descontraída, o jovem natural de Vila Viçosa contou-nos como lidou com esses momentos mais complicados, como geriu a frustração por, por duas vezes, ter falhado pratos típicos da sua região – a sopa de cação e as migas - e ainda como a participação no formato de sucesso lhe abriu portas para projetos aliciantes que espera abraçar em breve.

A primeira experiência culinária

O jovem recorda os primeiros passos no mundo da cozinha com história caricata em que, aos oito, nove anos, depois de um jogo de futebol – outra paixão – quis fazer um doce, mas a mãe só tinha em casa um pudim instantâneo. Depois de ler atentamente as instruções, juntamente com um amigo, pôs mãos à obra. “O problema é que na preparação dizia para cozinhar em lume brando, então eu achei que um isqueiro seria suficiente para concluir a receita. Entretanto a minha mãe chegou, estava eu com o isqueiro por baixo do tacho, e foi nessa altura que ela percebeu que tinha de me ensinar a usar o fogão”, lembra, divertido.

“Nunca houve uma grande tradição de cozinhar em casa. A minha mãe teve durante muitos anos uma loja de roupa e depois uma florista e só mais recentemente, depois de eu próprio começar o curso [Gestão e Produção de Cozinha] é que ela começou a interessar-se mais. Tanto é que, numa altura em que ficou sem trabalho, dedicou-se à cozinha e passou até a ser cozinheira numa herdade onde, inclusivamente, organizavam eventos e eu fui ajudá-la algumas vezes. Isto tornou-nos ainda mais próximos e cúmplices”, garante.

Ainda assim, o concorrente do Hell’s Kitchen recorda com carinho os almoços tradicionais em casa dos avós com as típicas sopas de pão. Memórias e relação afetiva que acabaram por influenciar o seu percurso na competição.

A “paixoneta’ da avó por Ljubomir Stanisic como inspiração para participar no programa

“Inscrever-me no programa resulta de um desejo de outra pessoa que eu quis cumprir. Tanto que a minha mãe disse que ia inscrever-me e eu respondi que já não precisava porque eu já o tinha feito”, começa por contar. Embora assuma a curiosidade por conhecer de perto o mundo da televisão e de saber como funcionam os bastidores, garante que nunca se tinha imaginado a entrar num formato relacionado com a área em que se formou.

“Isto surgiu porque a minha avó era fã do programa do chef Ljubomir no canal da concorrência e um dia eu estava a ver um desses programas em casa dela e a minha avó sempre teve uma ‘paixoneta’ inacreditável pelo chef. Ele não tem uma cara propriamente simpática, mas ela achava-o mesmo muito bonito. E dizia-me que gostava muito dele e que ambicionava que eu um dia estivesse ao lado dele”, acrescenta.

“Entretanto, a minha avó acaba por falecer pouco tempo depois e dias mais tarde vi o anúncio para as inscrições no Hell’s Kitchen. Pensei de imediato que poderia ser uma boa homenagem. Mais à frente acabaram por me contactar e sempre houve aqui uma história estranha, parece que estava destinado, porque o meu avô também faleceu antes de eu entrar para o programa e o primeiro prato que apresentei estava ligado a ele. Sinto que houve ali várias coisas a encaminharem-me para o programa, mesmo quando eu não queria ir, parecia que estava a ser ‘empurrado’ de alguma forma”, recorda João Parreira.

“No fundo fui eu a tentar cumprir um desejo da minha avó, mesmo que ela já cá não estivesse. Eu sei que ela ia ficar muito feliz de me ver lá, porque eu acho que, numa situação normal, eu não me teria candidatado. Foi muito mais o desejo de fazer o que queria que eu fizesse. Sei que ficaria feliz e que, tanto para ela como para o meu avô, seria motivo para saírem à rua cheios de orgulho e contar aos amigos que o neto estava na televisão. Eles davam muito valor às minhas conquistas”, remata o jovem cozinheiro.

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A primeira impressão da cozinha do Hell’s Kitchen

João Parreira já tinha estado noutras cozinhas profissionais, até mesmo durante a sua formação académica, pelo que não foi tanto o espaço em si que o impressionou, mas toda a envolvência e o primeiro contacto com o implacável Ljubomir Stanisic. “Ao olhar para a cara dele enquanto descia as escadas, parecia que já tínhamos feito alguma asneira e ainda nem tínhamos começado a trabalhar. Nesse momento, olhei para o lado e vi todos os meus colegas muito nervosos. Estavam todos a transpirar, incluindo eu. E eu só pensava: ‘Agora é que vai ser’. Foi aí que me caiu a ficha e percebi que a partir dali as coisas iam ser a sério”, lembra.

A admiração pelo percurso de Ljubomir Stanisic

Depois de revelar que no passado já tinha tentado trabalhar ao lado do famoso chef bósnio num dos seus restaurantes, sem sucesso, o alentejano garante que a sua opinião sobre Ljubomir sempre foi positiva e a sua postura de admiração.

“Acho que é uma pessoa muito rígida e eu também me vejo assim nas cozinhas por onde passo, quero sempre que as coisas corram bem e sempre admirei isso nele. Às vezes acaba por ser um pouco duro, é verdade, não escondo isso, mas a maneira como ele vê as coisas, como quer as coisas, é de uma pessoa que quer ser a melhor naquilo que faz. E isso para mim, que sou jovem, que estou a começar a minha vida, serve-me de orientação. É por pessoas assim, que querem ser melhores todos os dias, que tenho de me guiar”, afirma João Parreira, antes de explicar que num ambiente mais descontraído, Ljubomir Stanisic é divertido, ri-se e conversa tranquilamente sobre outros temas. “Mas na cozinha o ambiente tem de ser aquele, para sermos bons temos de estar concentrados. E o sucesso que ele alcançou é o resultado daquela postura, portanto é olhar com respeito e tentar um dia chegar-lhe aos calcanhares, tentar ser nem que seja um dedo do pé do Ljubomir. Além de ser um ótimo profissional, de saber muito, está disposto a ensinar. Foi, sem dúvida, uma experiência única”, afirma o jovem.

A homenagem ao avô que não correu como esperava

Foram muitos os ‘puxões de orelha’ de Ljubomir Stanisic a João Parreira ao longo do seu percurso na competição, fosse pelos erros nas provas individuais ou pelas suas falhas durante o serviço. Contudo, o jovem alentejano garante que houve sempre aprendizagem e diz sentir que o chef foi implacável com ele para tentar que desse o seu melhor.

“Eu tive alguns momentos duros no programa. Houve dias em que tudo me corria mal. Mas também houve outros em que não tinha o resultado que queria na prova individual, mas depois o serviço corria relativamente bem e, embora fosse muitas vezes nomeado, se o chef não me mandava embora é porque achava que não havia motivos para o fazer”, refere.

“Mas o momento mais duro foi, sem dúvida nenhuma, o primeiro episódio. Apesar de, depois disso, ter havido outros dias com coisas que me custaram, eu sinto que tinha a mochila tão cheia que já nem ligava muito. Mas o primeiro episódio foi difícil por causa da história que estava por detrás do meu prato e que eu depois não consegui fazer a homenagem que queria. Chamei sopa de cação ao prato que fiz – o que foi um erro, já que não segui a receita tradicional e, se calhar, bastava mudar o nome para ter tido uma melhor avaliação – porque dias antes da minha entrada para o programa também faleceu o meu avô e essa tinha sido a sua última refeição. Inspirei-me nisso e quis, de alguma forma, homenageá-lo. Magoou-me muito porque aquele prato já me tinha corrido bem, foi até o prato que me permitiu entrar no programa, mas naquele dia, com a insegurança, o fator novidade – colegas, cozinha, câmaras, toda a envolvência – correu mal e custou porque eu sei o que significado que tinha para mim. Tinha sido a oportunidade de entrar com o pé direito na competição”, recorda João Parreira, acrescentando que a avaliação negativa o deixou “muito em baixo”.

A relação com os colegas e o ‘passar pelos pingos da chuva’

Ao longo de várias semanas, João Parreira foi nomeado pelos colegas devido aos seus erros na cozinha e muitas vezes foi apontado como o elo mais fraco, algo que, garante, não o afetou. “Temos de ter consciência que aquilo é uma competição. Mas é complicado explicar porque, apesar disso, o trabalho de equipa é fundamental, porque até certa altura do programa em que as provas se tornam mais individuais, se as coisas não correrem bem em equipa, se não formos unidos, vamos perder provas. Aconteceu muito isso na antiga equipa azul, quando éramos só homens. Havia pouco espírito de equipa, não queria falar em grupinhos, mas havia concorrentes mais próximos que outros e isso acabava por se refletir na cozinha”, explica o cozinheiro, antes de contar pormenores da vida fora das gravações, quando todos estavam isolados e a partilhar a mesma casa.

“Fora da cozinha, eu sempre tive uma ótima ligação com praticamente toda a gente, embora passe uma ideia um pouco errada. Eu tinha uma excelente relação com toda a equipa vermelha, das mulheres. Nós saíamos das gravações e em casa obviamente dávamo-nos mais com as pessoas com que mais nos identificávamos. Eu, por exemplo, dividia quarto com o Ricardo [Ruivo] e tinha uma ótima relação com ele, com o Rafael [Ribeiro] e com o Diogo [Filipe] também. Mas depois no estúdio sobressaiam as personalidades e as maneiras de trabalhar. Com o Lucas [Fernandes], por exemplo, temos muitas divergências. E a verdade é que não éramos os melhores amigos, mas em casa até nos dávamos bem, convivíamos, conversávamos, cozinhávamos… Mas quando chegávamos à cozinha éramos incompatíveis. E isso acontece também na nossa vida cá fora, há pessoas de quem gostamos, mas com as quais não conseguimos trabalhar. Temos estilos diferentes de cozinha e quando chegávamos ali entrávamos em conflito”, lembra, acrescentando: “No geral, criei uma ótima relação com toda a gente, exceto com o Raul [Emmerich], mas isso acho que é válido para todos. Ele passou 3, 4 dias connosco e praticamente não tivemos tempo de o conhecer”.

As migas na liquidificadora e o ‘raspanete’ do pai

Uma das avaliações mais críticas de Ljubomir Stanisic a João Parreira foi quando numa prova em que era preciso apresentar pratos típicos de cada região, o jovem alentejano serviu umas migas, mas, “para acelerar o processo de triturar o pão” decidiu usar uma liquidificadora.

“Tenho tentado evitar essa questão, mas a verdade é que obviamente que já fiz várias vezes migas, é dos meus pratos favoritos. Mas naquele momento de stress inventei uma coisa que acabou por me prejudicar. Também me aconteceu no programa em que fizemos a espuma. Estava bonita, bem feita e lembrei-me: ‘Deixa por aqui umas pedrinhas de flor sal para potenciar sabor’. O chef ‘catou-me’ logo. E foi o suficiente para a prova já não me correr bem. E ao longo do programa aconteceu-me muito isto. Querer inventar qualquer coisa que depois não tinha o resultado esperado. Foi o que aconteceu com as migas. No passado já tinha feito aquilo, mesmo em ambiente de cozinha profissional, e tinha corrido bem. Naquele dia, a liquidificadora era demasiado potente e tramou-me. Quis acelerar o processo e agora, com distanciamento, percebo que não poderia tê-lo feito porque o objetivo era recriar pratos típicos e como inventei levei na cabeça e com razão. Tal como a sopa de cação, custou-me muito, porque é um prato da minha região e eu tinha a obrigação de brilhar, era um dia em que as coisas deviam ter-me corrido bem e eu não soube aproveitar”, lamenta o também treinador de futebol, revelando a reação da família ao ver esse episódio.

“O meu pai ficou aborrecido comigo. Disse-me: ‘Mas porque é que te metes a inventar? Já fizeste migas cá em casa tanta vez, porque foste triturar o pão daquela maneira, tu já sabes que quando inventas as coisas não correm bem.' Ficou chateado, mas também percebe que às vezes é preciso tentar dar um toque de modernidade, mesmo nos pratos mais tradicionais. E o que o chef me quis transmitir foi que, quando se trata de um prato típico, posso inovar na apresentação, mas tenho de manter a essência do prato e respeitar a sua confeção. E ele castigou-me várias vezes por eu inventar em coisas que não valia a pena fazê-lo, não por estar completamente errado”, avalia o cozinheiro, reconhecendo as suas falhas.

Os planos para futuro com os conselhos de Ljubomir Stanisic sempre presentes

O jovem alentejano revela que a participação no programa a da SIC lhe deu alguma visibilidade e que nos dias que se seguem à emissão é muito solicitado, seja através de mensagens, telefonemas ou até pessoas que o reconhecem e abordam diretamente.

Pelo meio têm também surgido algumas ofertas de trabalho que, apesar de estar a analisar, diz preferir esperar que o programa acabe para poder concentrar-se no próximo projeto. “Quero voltar ao trabalho com calma e focado”, afirma.

Desta experiência retira essencialmente coisas boas, até porque, apesar de receber comentários negativos, também tem sido elogiado pela forma tranquila e serena como soube lidar com as críticas e os momentos mais tensos com os colegas e também com Ljubomir Stanisic.

“Depois de algum tempo mais afastado da cozinha, tinha planos para trabalhar num sítio onde pudesse aprender a sério e havia restaurantes onde eu queria mesmo trabalhar e tudo isso está a surgir. O programa deu-me essa visibilidade e há pessoas dispostas a dar-me essa oportunidade. É uma área muito competitiva, somos muitos a querer o mesmo e nem sempre temos a oportunidade de nos mostrarmos. Sinto que o facto de termos arriscado ao entrar no programa, nos está agora a trazer alguns frutos e isso é uma vantagem. Os meus planos para os próximos tempos passam justamente por aproveitar algumas propostas e sair do país é uma opção. Quero experimentar outras culturas, que foi algo que nunca fiz, eu praticamente nunca viajei. Felizmente tenho-me candidatado aos sítios e até estou a ter respostas positivas. Embora ainda não seja certo, é possível que Espanha seja o meu próximo destino. Ainda não posso revelar muito, mas tive um convite de um restaurante com duas estrelas Michelin, com um chef bastante conhecido, e estou a considerar. Isto também foi um conselho do chef Ljubomir, que me disse que eu precisava de viajar para abrir horizontes e perceber que há muita coisa que ainda não sei. E é verdade”, concluiu João Parreira esperançoso num futuro de sucesso como chef de cozinha.