Inês Gonçalves

COMEÇOU A LAVAR PRATOS, CHEGOU A TRABALHAR PARA O JAMIE OLIVER E ACABOU COMO SUB-CHEFE DOS BAFTA

Hélder Guimarães tem 32 anos e foi expulso do Hell's Kitchen este domingo, 9 de maio. Contudo, a sua relação com a cozinha começou em 2012, pouco depois de se mudar para Londres "com o objetivo de estudar e fazer o ensino superior da área do som".

O percurso, claro, estava longe de passar pela área da culinária mas a verdade é que, como tantos outros estudantes, as ajudas de custo eram necessárias e foi parar à copa de uma cozinha, a lavar pratos.

"Foi a primeira oportunidade que me apareceu e que me garantiu algum sustento. Foi onde comecei. Na cozinha a lavar pratos", admite sem medos.

Durante a infância, estava longe de imaginar que um dia o seu futuro passaria pela área. Com uma mãe enfermeira, passava alguns dias no hospital e aquilo que chegou a considerar alguma vez ser, foi médico. "Nunca tive sequer vontade em pensar em cozinha durante a minha fase de crescimento", explica.

Contudo, o simples contacto com o meio atarefado de uma copa de um restaurante foi o suficiente para passar a encarar a possibilidade de enverdar pelo ramo da cozinha como "mais do que apenas uma fonte de sustentabilidade".

Teve sorte "de calhar numa companhia grande com vários chefes", o Payton & Byrne, nos Kew Gardens (Londres) e rapidamente surgiu "a oportunidade de sair da zona dos pratos e passar para a parte da confecção".

Assim começou uma jornada que acabou... Nos BAFTA.

Entre este caminho, do qual fala sempre com muito orguho, Hélder teve ainda "a sorte" de trabalhar numa cadeia de restaurantes de Jamie Oliver - o conhecido chef britânico.

O seu trabalho no Jamie Oliver Recipe, em Nothing Hill, foi um marco importante para o seu currículo, onde conseguiu passar "por todas as secções" numa cozinha.

Desde que começou, o cozinheiro definiu que não queria ficar na zona de conforto. "É muito bonito uma pessoa ser estável e estar num restaurante há muito tempo mas obtém-se muito mais ao beber de outras águas", confessa.

Assim, voltou aos Kew Gardens onde "surgiu a oportunidade de ir trabalhar para uma companhia de catering muito conhecida e conceituada em Londres, a Rhubarb". Foi aqui, onde fazia eventos para a alta sociedade, que descobriu o fine dining e a procura pela estela Michelin.

À procura de coisas novas, e numa altura que coincidiu com a conclusão da licenciatura em Design de Som, Hélder viu um anúncio dos BAFTA que procurava um sub-chefe. A ideia que se alojou na sua cabeça com sede de novidades foi uma: 'Porque não tentar a minha sorte?’.

E mais uma vez deu frutos, ou no caso, um lugar como sub-chefe.

Depois de um dia de experiência onde teve de cozinhar alguns pratos a pedido do chef recebeu uma proposta. Convidaram-no a ficar. E assim começou a trabalhar naquele que, ainda hoje, é o seu trabalho. E, provavelmente, o que lhe deu a bagagem que precisava para que, meses mais tarde, conseguisse suportar a exigência, bastante sonora, do chef Ljubomir Stanisic.

"Os BAFTA foram e são o sítio onde ganhei mais bagagem em termos de experiência. Tenho de estar sempre em cima de tudo e superar-me a mim mesmo. Sempre a aprender e a tentar inovar. Foi o sítio onde mais aprendi", revelou.

A PANDEMIA GARANTIU-LHE O SONHO QUE HÁ TANTO ANSIAVA

A vontade de participar num programa que poria à prova as suas capacidades na cozinha sempre existiu. Só faltava a oportunidade e o momento certo. Durante a conversa connosco, relembrou: "A uma certa altura, pouco antes de começar a pandemia, vi um anúncio do Hell's Kitchen Portugal na Internet e pensei que não iria conseguir participar porque estava em Londres’". Contudo, a pandemia, que a tantos veio roubar oportunidades, foi o "ouro sobre azul" para o jovem português.

"Se não fosse a pandemia não conseguiria nunca ter participado no programa"

O ESGOTAMENTO PSICOLÓGICO QUE RESULTOU NA SUA EXPULSÃO

Apesar de estar habituado a lidar com pressão, o Hell's Kitchen foi um choque. Um sentimento comum a todos os concorrentes que, mesmo habituados a estar numa cozinha, não estavam habituados à pressão de o fazer frente a uma câmera.

"No início passávamos muito mais tempo a ver posições do que propriamente estar na cozinha, a cozinhar. Inicialmente foi um choque, depois fomo-nos habituando"

O melhor que retira do programa é sem dúvida "a convivência com certos elementos da equipa". "Fiz amigos", afirma. Já o pior, também está bem presente: o dia da expulsão.

"Nessa noite eu sabia que ia para casa", admite. Atribui as culpas do seu mau desempenho ao estado psicológico em que já se encontrava.

"Principalmente por já não estar bem psicologicamente, também não conseguia sequer raciocinar e perceber as coisas que estavam a acontecer num menu que nem me é familiar", confessa.

"O cansaço psicológico já era muito. Estávamos há um mês e duas semanas, na altura, e eu sinceramente já estava psicologicamente esgotado", acrescenta ainda.

O FUTURO ENTRE LONDRES E PORTUGAL

Apesar de já ter iniciado o seu projeto em Portugal, o GoNutspt, que junta donuts e croissants, Hélder vai regressar a Londres. Por enquanto, considera que a jornada nos BAFTA ainda não chegou ao fim. "É dos projetos mais interessantes que já tive em cima da mesa", explica.

Contudo, está totalmente dedicado à marca que fundou recentemente, depois de uma noite de trocas de ideias com a ex-concorrente e amiga, Daniela.

O cozinheiro é o responsável por trazer para terras portuguesas o conceito de cronuts: uma espécie de donuts com massa de croissant.

"Sou dos poucos a fazer isto em Portugal, exclusivamente", revela.

Até agora, já conseguiu criar a sua própria receita, que diz funcionar na perfeição. O feedback é o melhor e o projeto parece ter sabor para continuar. Um dos seus maiores objetivos seria "abrir um espaço físico". Algo que espera alcançar em breve.

Por fim, Hélder despede-se da mesma forma que começou. Com a certeza de que, por cada sítio que passa, há algo de positivo a retirar e aprender.