João Xará

Foi este domingo, na SIC, que os portugueses viram Ana Sofia Figueiredo abandonar o Hell’s Kitchen. Agora, no seu restaurante, as chamadas para take-away parecem não deixar a noite terminar. Foi entre o entusiasmo e o cansaço que a cozinheira conversou com o site do Fama Show sobre a competição, a relação com os concorrentes e Ljubomir Stanisic, a reação do filho ao programa e de como se vingou do crème brûlée.

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Foi numa prova de fogo que Ana Sofia abandonou a competição. A cozinheira, tal como Daniela e Ana Cristina, nomearam-se a si mesmas. Ana Sofia foi a escolhida para sair sem receber, ainda assim, qualquer crítica de Ljubomir. "Não te vi a fazer nada de mal ou errar em nenhum momento na tua equipa, a culpa de ter corrido mal é de toda a equipa vermelha. Não há dúvida nenhuma, tens a minha gratidão e os meus parabéns", disse o chef e anfitrião do formato. Ana Sofia removeu a jaleca e regressou a casa onde a vida não parou.

“Graças a Deus tenho tido muito trabalho. É uma bênção”, confessa Ana Sofia já sentada num momento de pausa. Está no Sabugal, numa localidade pequena que viu a crescer e à qual não quis voltar as costas quando se apercebeu que Medicina Nuclear, a sua área de formação, não era o caminho.

“Foi logo no estágio que percebi que não era o que queria. Sou uma pessoa demasiado ativa para só fazer aquilo. Queria mudar o mundo à minha volta e movimentar pessoas”, começa por contar. Essa carência levou-a desistir. Voltou de Lisboa para o Sabugal onde faz a diferença.

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“Foi o meu marido que me inscreveu

Foi em terras raianas, ao lado do marido, que procurou lacunas. “Vi que havia imensa procura pelo queijo do Sabugal devido à alimentação dos animais e às nossas temperaturas”, recorda. Começaram pelo leite, depois veio o queijo e, claro está, o seu restaurante. Para Ana Sofia, um negócio só é rentável quando não há desperdício. O que é plantado vai para a mesa, o que sobra para é para os animais. Cria, produz e vende cogumelos shitake, cabritos, leitões e queijos.

Dois meses depois de abrir o restaurante, Ana Sofia foi chamada para o Hell’s Kitchen. “Foi o meu marido que me inscreveu”, revela a pastora e queijeira. Sem conhecer o programa original, foi passando todas as fases. “Não me preocupo com o que vai acontecer, quando chegar logo vejo. É a minha postura”, explica. Mas afinal como correu a experiência?

Sem formação em cozinha, Ana Sofia assume-se como autodidata e confessa que se sentiu intimidada. “Nunca tinha visto uma cozinha assim, nem sabia colocar os equipamentos a trabalhar. Todos falavam de forma técnica”, diz a cozinheira que não se entendeu com o forno vertical a vapor. “Até tinha medo que aquilo fosse explodir, ‘ai o meu rico forno a lenha’”, brinca.

Ana Sofia, Ana Cristina e Daniela antes de saberem quem será expulso

Ana Sofia, Ana Cristina e Daniela antes de saberem quem será expulso

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A experiência, o filho e a azáfama do campo

“Fiquei grata da oportunidade de entrar numa cozinha daquelas. Estava feliz de estar ali, mesmo quando estava perdida. Estava para aprender”, fala sobre a liderança de Ljubomir Stanisic antes de deixar uma confissão. “Achei que tinha tirado o lugar a alguém que tinha estudado cozinha e que eu estaria lá a mais. Senti isso”, adiantando que, em retrospectiva, estava muito tensa e devia ter usufruído mais da experiência. Ainda assim, houve tempo para formar alianças importantes. Todos os dias falo com a Ana Cristina e a Jennifer”, descreve, notando que têm uma forma térrea de olhar para o mundo.

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Onde vive, no Sabugal, ainda não se fazem sentir os efeitos do programa. “Aqui já toda a gente me conhecia, a diferença é que agora, as pessoas que sempre falaram comigo, coram ao ver-me e eu coro também”, nota ao soltar uma gargalhada. Acredita que quando o espaço possa estar aberto, que o público das redondezas apareça. “Gosto de falar e receber pessoas e não me deixam”, manifesta-se sobre as restrições da COVID-19. Ana Sofia tem um filho, Rodrigo, de oito anos que viu a mãe no programa. “Ele disse que gostou de me ver na televisão e é engraçado que ele não entende a parte da tensão [do programa]”, explica. Esses nervos à flor da pele vividos pelos concorrentes nem sempre são fáceis de aguentar e talvez por isso a Ana Sofia descreva a sua expulsão desta forma. “Senti-me extremamente aliviada quando saí. Deixei tudo para trás e a pressão estava a ser demais”, explica.

Sobre o cenário de provação e de adrenalina do programa, Ana Sofia conta que fez questão de não esconder a realidade do filho. “Eu quero que ele perceba que isto não é um mundo perfeito. Uma palavra menos boa faz-nos evoluir e ele vai passar pela mesma situação que eu. Só não vai ser é filmado”, sublinha.

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Ljubomir ainda está na sua cozinha

Domingos Ambrósio. É o nome do seu avô, mas também o nome do seu restaurante. Foi com ele, desde pequena, que aprendeu a negociar. “Ia para as tascas com ele e ensinava-me a comprar ovelhas”, lembra. É do avô que tem a veia empresarial. Mas afinal o que se come no Domingos Ambrósio?

Há cabrito assado no forno a lenha que é, sem rodeios, o prato estrela. Quando entrar, já sabe que tem cinco a seis entradas tradicionais, entre dobradas, enchidos e patés. Para Ana Sofia não há nada pior do que esperar à mesa com estômago vazio. A cozinha é aberta, o barro é preto e o azeite borbulha. Aqui coze-se o pão, as panelas são de ferro e as origens são da infância. Mas parece que tudo está mais organizado com Ljubomir Stanisic.

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“Está tudo diferente. A minha bancada, o frigorífico, a minha forma de cozinhar e empratar, tudo mudou para melhor. Vejo o chef na minha cozinha, em todo o lado. E quando faço uma asneira ainda penso que vai lá estar”, assegura a cozinheira que adapta o que aprendeu ao seu restaurante.

Num desafio do programa, Ljubomir recusou-se a provar o seu crème brûlée, um creme de leite com crosta de açúcar ‘queimado’. Queixando-se da consistência, o chef elevou a tigela e deixou cair tudo na mesa. Assim, desfeita. Será que a sobremesa lhe deu pesadelos? “Ah, ele [o chef] não me magoou, só tive pena por não ter saído bem. Mas nunca me senti magoada. Não importa o que não sei fazer hoje, mas o que saberei amanhã”, explica assim a sua filosofia que já deu frutos.

Ana Sofia recriou o crème brûlée e a sobremesa mora agora no menu do seu restaurante. Se a vingança se serve fria, a redenção serve-se quente.

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