Sharam Diniz

Sharam Diniz

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Sharam Diniz, que recentemente se estreou como atriz na novela Alma E Coração, da SIC, foi a convidada de Daniel Oliveira no Alta Definição deste sábado, 13 de outubro.

A conversa intimista começou com a top model luso-angolana a recordar a sua infância, a separação dos pais, quando tinha apenas dois anos, e a morte do pai, em 2008. “Não houve tempo para nos despedirmos, a morte não avisa. Chega e, quando damos conta, já foi (…) O meu pai já estava internado, em Luanda, Na altura os médicos diziam que era paludismo, mas o meu pai tinha diabetes, colesterol alto, fumava… Na noite anterior, a minha mãe disse-me que ia visitar o meu pai ao hospital e perguntou se queria ir e eu disse: ‘Vou amanhã’. Porque sabia que dois dos meus irmãos iam. E isso foi algo que me perturbou durante muito tempo. No dia seguinte, os meus irmãos apanharam-me em casa e íamos todos alegres no carro, música alta e quando chegámos ao hospital, saiu uma tia minha do quarto a chorar. Nos ficámos sem perceber o que se estava a passar. De repente sai um médico e diz que ele tinha falecido. E aí começou um choro que não acabava mais. Eu fiquei dias e dias sem conseguir falar com ninguém. Só queria estar no quarto fechada. Chorava. Comia porque tinha que comer. Não sentia o sabor da comida. E o facto de ter tido a oportunidade de ir num dia que era o dia da despedida atormentou-me durante vários anos… Até eu decidir que a vida tinha de continuar, porque se eu queria que o meu pai se orgulhasse, eu não podia parar de viver”, recordou em lágrimas.

Sharam lembrou ainda a morte de um dos seus 12 irmãos, dois anos antes. “Durante um treino de capoeira, caiu no chão e não se levantou mais. Teve um derrame cerebral”, explicou, acrescentando que nessa altura percebeu que a maior fortuna que o pai lhe tinha dado eram os irmãos e a união que sempre fomentou entre todos, apesar de serem filhos de mães diferentes.

Mas o momento mais difícil desta conversa foi quando Sharam Diniz lembrou os tempos complicados que viveu como manequim, por se ter sentido rejeitada depois de ter estado no ‘topo do mundo’. “Em 2012, faço o desfile da Victoria s Secret, sou a primeira a representar duas nações, Angola e Portugal. No ano seguinte ganho um Globo de Ouro em Portugal e, no final do ano, não volto a fazer o desfile. No ano seguinte não faço o desfile novamente. Afetou-me muito a nível profissional, a nível emocional, porque eu não era de natureza uma modelo muito magra. Eu tinha que me sacrificar, deixar de comer coisas que gostava, ser disciplinada e ir ao ginásio… E quando eu fiz no primeiro ano pensei que fazer novamente não seria complicado, mas foi. E lidar com a rejeição não é fácil para ninguém. (…) Eu continuava a trabalhar de segunda a segunda para outras marcas, mas o meu objetivo principal era voltar a fazer o desfile da Victoria’s Secret. Eu achava que tinha de provar isso às pessoas. É dos desfiles que te dá mais exposição, visibilidade. Ninguém quer saber se foste a primeira, se já fizeste. Querem saber quem lá está a fazer”, adianta.

“Então chegou uma altura q eu ia a castings já super negativa. (…) Fisicamente não havia nada que eu pudesse fazer em relação às minhas medidas, era a minha estrutura óssea e eu não sabia, não percebia. (…) Eu só comia saladas e não emagrecia. Tudo aquilo que eu já tinha conquistado não valia a pena. Não me dizia nada e foi algo que começou a consumir-me de tal forma ao ponto de ser ingrata, de aparecerem outras coisas e eu não valorizar. A minha auto-estima foi para o ralo eu passei a ser uma pessoa pessimista, mal-humorada, fechei-me, deixei de seguir as minhas amigas que tinham mais sucesso do que eu nas redes sociais porque não queria ver nada. E à medida que o tempo foi passando percebi que eu era muito mais do que uma rapariga que tinha de ter as medidas certas. No dia em que eu decidi deixar de pensar no que as pessoas pensavam a meu respeito, foi possivelmente quando as coisas começaram a mudar. Quando uma porta se fecha, abre se uma janela com algo melhor”, explica antes de falar da crueldade que se vive no mundo da moda.

“Quando estou na passerelle estou em personagem. Sei o que tenho de fazer. Mas eu sou outra pessoa, que sonha, que cai, que chora, que tem fraquezas, tem problemas pessoais, familiares, que perdeu pessoas que amava, não está sempre tudo bem e houve a tal fase da rebeldia. Ser o bom exemplo não resulta. O mau exemplo é que é cool. Então [pensei] eu vou começar a fumar para ser cool e aceite no meio. Comecei pelo cigarro e mais tarde passei para a erva. Havia muitos dias em que não fazia nada. Não ia ao ginásio. Nada acontecia. Acordava, ficava em casa e fumava. Mas continuava a ir à igreja aos domingos, em Nova Iorque. E houve um dia que decidi ir falar com o padre, que era uma coisa que eu via nas novelas e nos filmes, as pessoas confessarem-se, mas nunca imaginei fazer. Não me confessei, mas falei com ele a chorar”, recordou que o conselho que lhe foi dado foi tomar as rédeas da sua vida, pois só ela tinha o poder de mudar o rumo das coisas. E assim fez.

“Quando pensava fumar para esquecer, ia ao ginásio, saía de casa. E saía também do mundo da moda que era o que mais me consumia, a necessidade de aceitação. Estar no meio das raparigas mais in da altura e ligar-me a pessoas de outras áreas mostrou-me que existia outro mundo fora do mundo da moda (…) É nos momentos maus que vês quem realmente se importa contigo quem está lá para ouvir para dar um a palavra de apoio e houve, para minha surpresa, muita gente que eu achava que eram meus amigos, mas não eram. A moda tem coisas boas, mas também tem coisas muito más e se não tiveres alguém que te guie, é muito fácil tu te perderes”, concluiu.