Francisco Moita Flores

Francisco Moita Flores

Reprodução Instagram, DR

Francisco Moita Flores está de luto. O pai do escritor morreu aos 97 anos. Desta forma, Francisco Moitas Flores usou as redes sociais, esta quarta-feira, 17 de fevereiro, para prestar uma sentida homenagem ao progenitor.

"Foi pelos seus olhos que aprendi a amar os livros. E a amar o Mundo, os animais, as pessoas. Pelos seus olhos e pela ternura da minha mãe. Íamos os dois, quinzenalmente, à Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, que estacionava em frente à Igreja de S. João Baptista. Uma fila de esfomeados, putos e graúdos, à espera de alimento", começou por escrever.

"Era um homem rijo, sem horas para trabalhar, intrépido e insurreto. Não suportava o Regime e, com ele, descobri as emissoras clandestinas, que se diziam em voz sussurrada", prosseguiu.

"Seguindo os seus conselhos foi fácil equilibrar-me na bicicleta e foi a prenda da minha alegria quando passei nos exames do segundo ano (atual 6º ano) . Era um grande contador de histórias que embeveciam os putos como eu. E lia! Por causa de um livro, que o emocionara, fomos visitar o Palácio da Vila Viçosa. O primeiro Palácio que os meus olhos espantados viram", recordou.

"Foi com ele que soube existirem livros proibidos. Esses estavam escondidos, encapados com papel pardo. O Aquilino, o Redol, o Soeiro Pereira Gomes, escondidos numas caixas de sapatos. Foi neles que percebi que havia outro mundo para além daquele que nos era ensinado, com fome de justiça e de lonjura", destacou.

"Ainda venceu o Coronavírus, num último combate. Recuperou, mas a luta deixou-o frágil. Poucos dias depois desta derradeira vitória, a minha ‘irmã’ Graciana telefonou. Chegara a hora de dizer adeus ao meu grande herói. Despedimo-nos em paz. Agradeci-lhe, escorreu-lhe uma lágrima pelo rosto cansado e outra dos meus olhos, apertámos a mão e o último beijo e a última carícia. E nessa noite, quando adormeceu, o Mestre Chico Flores da Defesa de S. Brás, partiu, em sossego, depois de uma vida comprida. E cumprida! "Veio aconchegar-se na minha memória. De onde nunca mais sairá", completou.

Leia aqui o texto na íntegra.