António Cordeiro foi o convidado de Daniel de Oliveira, no 'Alta Definição' deste sábado. O ator pôs a nu a dura realidade da doença que tem, a saudade de representar, a preocupação pelo futuro e o sonho que ficou pelo caminho. A entrevista completa abaixo.

"Uma daquelas entrevistas que nos marcam durante muito tempo. Um homem lúcido, preso dentro do seu próprio corpo." Daniel Oliveira já nos tinha avisado e a julgar pelo feedback nas redes sociais, estava certo.

Há um ano que se debate com uma questão de saúde com o nome de PSP (Paralisia supranuclear progressiva), uma doença incurável e progressiva que lhe limita a fala e locomoção.

A doença

"Estava a fazer uma novela e um espectáculo. Na novela foram fazendo com que falasse cada vez menos," disse. Nenhuma das partes sabia do diagnóstico. A hipótese de uma depressão foi desmistificada com uma bateria de exames no hospital e a consciência real da doença abalou-o.

"A minha mulher tem sido incrível, tem feito tudo para que seja um tipo normal, e eu não um tipo normal, nunca fui. Obrigado Helena, obrigado mesmo”, avançou para a câmara.

Teme agora deixar de fazer as grandes e as pequenas coisas que aprecia, representar e correr - "vai-me ser difícil tornar a fazer o que dá muito gosto".

A aprendizagem e os telefonemas que faltaram

"Dou comigo a tentar entender como as coisas se fazem. Estou a reaprender tudo, de como devo andar, como me devo sentar e falar, tem que ser tudo muito bem pensado, tudo”, explica.

O médico pediu-lhe para que não parasse. António não pára, mas não consegue sozinho.Na verdade não tenho nenhuma televisão que queria trabalhar comigo, estão todos com medo que eu não consiga fazer nada. Eu consigo", garante.

A doença tira-lhe liberdade e dá-lhe cansaço. É o sintoma de quando fala. Em resposta a Daniel Oliveira, afirma que é a dor na alma que mais grita. Tem pessoas que o estimam, que gostam dele, mas admite que faltaram algumas vozes.

A falta de um telefonema não faz sentido na sua cabeça, “mas também muita gente não sabe sequer o que eu tenho, ainda”., nota.

Os sonhos que tem e os que ficaram lá atrás

Trabalho, trabalho, trabalho. A oito meses de completar 60 anos, António Cordeiro não quer a reforma. As poupanças durarão pouco mais de um ano, mas ninguém pode viver apenas disso, diz. As séries da Netlfix, a ginástica ou um almoço com um velho amigo tentam ocupar o tempo, mas não chegam.

O eterno detetive 'Claxon' e 'Major Alvega' explica que as pessoas dizem que agora fala pouco - "mas eu estou a ouvir tudo, eu só tenho de falar quando tenho de falar”.

Ainda não fez tudo o que queria. Quer dar aulas. Quer o saber o que a geração mais nova deseja e "dar-lhes pistas". Começou com 18 anos como ator no Barreiro e da infância tem saudades da frescura e da informalidade dos calções.

Casou três vezes - "esta é a melhor das vezes" - e conta com mais de 20 anos de casamento. "Tem-se esmerado demais. Há uma série de anos que não tem férias e não tem por minha culpa”, revela.

Sonhos que ficaram pelo caminho? Um filho. Como criava um filho sem pensar nos problemas dinheiro? É uma profissão ingrata. trabalhamos hoje, não trabalhamos amanhã. Quando me for embora não fica cá ninguém para me lembrar. (...) É um gajo do Youtube, um tipo que vai ao ver as coisas que eu fiz?", pergunta.

Quer ser recordado como um bom ator, sabe que o é, mas quer continuar. A noção de legado é-lhe importante. "Estou apaziguadíssimmo com a morte, mas gostava que não fosse tão cedo“, completa.

"Vamos em frente que atrás vem gente", diz. Veja a entrevista completa abaixo.