João Xará

A ideia caiu-lhe no colo em 2013 com o desafio de Patrícia Sequeira (realizadora de O Clube e dos filmes Snu e Bem Bom), mas a primeira série escrita por João Miguel Tavares só começou a ser redigida a todo vapor no segundo semestre de 2020. Prisão Domiciliária tem estreia na OPTO esta sexta-feira, 16 de abril, e é o retrato da corrupção na pele de um ex-ministro português acusado de uma série de crimes económicos que, sem poder sair da sua mansão e com as contas congeladas, faz de tudo para evitar um julgamento arrasador. O site do Fama Show esteve à conversa com João Miguel Tavares, comentador político, numa entrevista onde não faltaram José Sócrates, Alfred Hitchcock, a sedução na corrupção e livros infantis.

Álvaro Vieira Branco. Fixe este nome porque é bem capaz de se apaixonar por ele. O ex-ministro de Obras Públicas, interpretado por Marco Delgado é o protagonista de Prisão Domiciliária que é acusado de abuso de poder, corrupção, tráfico de influências, prevaricação e participação económica em negócio no caso ‘Marinada’, um escândalo relacionado com a construção de marinas fluviais no interior do país.

Uma semana depois de José Sócrates chegar ao Campus de Justiça acusado de 31 crimes (semelhantes aos de Álvaro Viera Branco) e saber que será julgado por seis , o timing para a estreia de Prisão Domiciliária não podia ser melhor. “Demorei a convencer o Ivo Rosa a dar a decisão instrutória uma semana antes de lançarmos a série”, brincou João Miguel Tavares que está mais do que preparado para as comparações com a história de José Sócrates e a Operação Marquês.

Eu escrevia muito sobre corrupção e quando o convite foi feito pela Patrícia Sequeira – que não conhecia - o José Sócrates ainda não tinha sido detido no aeroporto da Portela”, recorda o cronista político. A ideia quando foi apresentada já mostrava um ex-ministro fechado em casa, numa altura em que Isaltino Morais e Duarte Lima tinham preenchido as manchetes dos jornais. Um político num único espaço, sem dinheiro disponível e desesperado por manter a sua esfera política e social intactas, foram os ingredientes que atraíram João Miguel Tavares a cumprir um desejo há muito sonhado: escrever um argumento para uma série.

Antonio Moura

"Um corrupto é sempre sedutor e charmoso"

Da boca de Álvaro Vieira Branco não vai ouvir um júbilo sobre as artimanhas contra o sistema ou mesmo ao povo português. A razão é simples. O Álvaro nunca admite que é corrupto mesmo para as pessoas que o sabem”, sublinha o autor que recrutou os jornalistas Catarina Moura, Tiago Pais e o Rodrigo Nogueira para o projeto.

Há uma cena de conflito no primeiro episódio onde muitos espectadores poderão associar a personagem com José Sócrates. “Quando a série evoluir vão ver claramente que não há um decalque até porque o Sócrates merece produtos próprios. É uma personagem fascinante”, adiantando que o interesse no ex-primeiro ministro, agora que está morto politicamente, é quase literário.Neste momento o Sócrates é mais antropologia do que política, explica João Miguel Tavares. Haverá contudo pequenos easter eggs para quem seguiu atentamente a Operação Marquês, embora a série se afaste da reprodução ficcional desse caso ultra-mediático.

Álvaro Vieira Branco é um homem de família. Casado com Beatriz (Sandra Faleiro) e pai de dois filhos adolescentes, Álvaro terá a ajuda da mãe (Valerie Braddell) de quem aprendeu os meandros da política já que foi autarca no interior do país.

“Eu quero que as pessoas olhem para o Álvaro e digam ‘Porque é eu gosto deste pulha?’”, conta João Miguel Tavares. “No fundo tem a ver com a capacidade de sedução. Um corrupto é sedutor e charmoso. Depois de um almoço com estas pessoas sais de lá a pensar ‘que encantadora’ ou ‘está aqui um amigo para a vida’”, dando os nomes de Armando Vara ou Miguel Relvas como exemplo.

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O Sócrates precisa de dinheiro para ser generoso com os outros”

Para o autor não faz sentido diabolizar uma corrupto quando na vida real o protagonista não se pode ser dar ao luxo de ser um idiota, pelo contrário.A ideia de que o Sócrates só quer dinheiro para enriquecer ou passear é mentira. Não quer dizer que ele não tenha uma boa vida, porque todos gostamos disso, mas o dinheiro é instrumental. É para juntar pessoas à sua volta para ganhar poder. O Sócrates precisa de dinheiro para ser generoso com os outros”, sublinha João Miguel Tavares.

Sim, Álvaro Vieira Branco, tal como a sua família, tem um vida de luxo cuja ostentação supera os rendimentos. Mas até que ponto é possível encobrir os crimes dos mais próximos? “Eu acho possível seres corrupto e manteres pessoas à volta no desconhecimento. Claro que depois podem unir os pontos e ver coisas estranhas, mas é possível manter o jogo de criar um círculo impoluto à sua volta: ‘Eu não te mostro e tu finges que não queres ver’ “, adianta.

Aliás, o facto de Álvaro Vieira Branco não querer contaminar o resto da família com as suas práticas só lhe vai dar uma maior dor de cabeça, mas também humanizá-lo. O protagonista terá fogos domésticos que terá de extinguir como qualquer homem ou mulher à frente de uma família.

A existência desses problemas ficou transparente nas escutas a Sócrates. “Isso é tudo matéria inspiradora, mas para isso que façam um documentário”, frisa o escritor sobre o ex-primeiro ministro que lança um novo livro em breve intitulado de Só Agora Começou.Com uma pulseira electrónica que lembra a si aos outros dos seus pecados, Álvaro Vieira Branco terá que lidar com a família, com os políticos, a falta de poder e determinar o que pode fazer para não ser levado a tribunal. Tudo isto sem sair de casa.

“Não é para te pôr pressão, mas a série está constantemente em cima de ti”, disse João Miguel Tavares a Marco Delgado antes da rodagem que foi feita em apenas um mês. Álvaro Vieira Branco é um homem que gosta de receber pessoas em casa, entreter e até cozinhar para a família junto à piscina, tal como Tony Soprano.

Preso numa mansão. A premissa é um convite para também conhecermos o leque de personagens secundárias, em particular aquelas que são essenciais para o plano de qualquer corrupto, as que compõem a teia. “Uma coisa que disse várias vezes no processo de escrita é que ‘aqui não há personagens estúpidas’ no sentido em que são facilmente manipuladas. Todas as motivações são diferentes”, indica o comentador político que sublinha que o dinheiro significa coisas diferentes para pessoas diferentes.

Antonio Moura

O guião a branco e a escrita com borracha

João Miguel Tavares terá sido convidado para escrever a série por conta do seu background em casos de corrupção mediáticos em Portugal, mas espera ter dado muito mais do que isso a este projeto. “O comentário e crónica política são a face mais visível. Mas o meu desafio era escrever boa ficção e não aproveitar a série para denunciar isto ou aquilo”, aponta.

Habituado a escrever livros infantis, João Miguel Tavares estabelece pontos em comum a escrita do argumento. “Eu comecei a escrever esses livros quando fui pai e há um lado imaginativo que gosto de explorar, não tanto em romances que não me vejo a escrever pela disciplina diária. Nunca tinha escrito um argumento, achei graça e foi surpreendente porque tem um lado fragmentário e concentrado. São coisas que trabalhas muito intensamente durante duas ou três horas e dou-me bem com isso. Aquilo é estruturalmente fragmentado e depurado”, descreve, contrastando com a experiência de uma obra de não ficção.

“Demoras uma hora a aquecer, depois entra-te um miúdo pela porta adentro e precisas de ir buscar o outro à escola e ficas frustrado porque era naquele momento em que as coisas estavam a acontecer. E esse cenário é muito cansativo, tendo em conta a vida que eu tenho”, admite. Co-escreveu e supervisionou a escrita dos oito episódios e confessa um outro gosto no processo da escrita: a edição. Gosto imenso de cortar os meus textos. Tenho imenso prazer em cortar. Às vezes os textos têm uma certa pomposidade”, diz o autor que, com os outros três jornalistas, liam os textos em voz alta em longas sessões pelo Zoom. A série foi escrita durante o segundo semestre de 2020.

Cito muitas vezes uma frase de Mark Twain que costumo partilhar com estagiários e jovens jornalistas: “Escrever bem é escrever com uma borracha”. Diz gostar de pessoas, qualidade obrigatória para ser um bom chefe. Quando gere equipas escolhe nutrir as qualidades de cada elemento.

Catarina Moura e Tiago Pais (com pequenas participações no elenco) foram desafiados em alimentar o guião com uma paixão que os une, a comida. “Trazer os interesses de cada argumentista, as suas paixões e idiossincrasias para dentro da série… tudo isso dá uma conversa inesperada, uma força de verosimilhança que torna as coisas mais simpáticas de ouvir”, sublinha.

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"Tenho o enorme luxo de fazer o que me apetece"

Um das provas de fogo enquanto argumentista é construir uma série onde o protagonista está dentro de uma casa o tempo todo. A premissa tornou a escrita desafiante, mas também ajudou no budget [orçamento]. “Sim. Havia a ideia que não íamos sair dali [da casa] numa produção low budget. Se virmos bem Alfred Hitchcock fez obras extraordinárias sem sair de uma sala. Aquele velho choradinho da falta de meios não faz muito sentido, mas claro que há detalhes em que isso se nota numa produção. Ainda assim há alguns segredos”, conta, referindo-se à realização de Patrícia Sequeira.

O icónico hotel Lapa Palace é quase uma personagem secundária de Prisão Domiciliária que é um fascínio assumido de Patrícia Sequeira. Mas o espaço incrível do hotel de cinco estrelas no centro de Lisboa só foi possível graças à pandemia. Em circunstâncias normais alugar o espaço seria incomportável.

A sua inexperiência associada à estreia no argumento terá contribuído para uma maior entregar por parte dos quatro autores. “Somos amadores porque nunca fizemos e estamos muito mais focados. Estamos apaixonados por isto, dedicámo-nos a isto”, revela João Miguel Tavares, refletindo que teve um papel mais preponderante daquilo que é um argumentista em Portugal. A equipa era consultada pela realizadora, informada sobre a escolha do elenco e viu a sugestão da música de Samuel Úria acedida.

Despir a voz política não foi de todo uma dificuldade para o cronista que escreve três crónicas por semana no Público e participa no Governo Sombra da SIC Notícias. O comentário político é uma fatia gigantesca dos meus rendimentos mensais. Mas também dedico imenso tempo semanal na Cinco Um Zero. E esta costela de gerir pessoas não é visível para o público (há ainda o podcast ‘O Resto é História’ no Observador ao lado de Rui Ramos) que ocupa grande parte do meu dia. O comentário político não é o que me defina prioritariamente. Se tivesse definir o que gosto são duas coisas: uma é estar pessoas e gerir equipas e a outra é gosto pela escrita”, resume.

“Eu tenho um enorme luxo de fazer o que me apetece. Sou patrão de mim próprio e não queria estar a escrever um argumento como uma encomenda”, acrescenta. Assume a surpresa de ter gostado tanto de escrever um argumento e reconhece o fascínio de quem entra no mundo do faz de conta de carne e osso. “O mundo é muito compensador. É ver as palavras de que lembraste na casa de banho para de repente veres o Marco Delgado a dizê-las num sítio luxuoso”, refere, elogiando o trabalho de toda a equipa.

Num caminho em que cada vez mais a ficção luta para corresponder às novas necessidades e exigências do público, João Miguel Tavares acredita na responsabilidade de trazer para o ecrã produtos mais diferenciados com uma linguagem mais cinematográfica. E não se trata de uma questão de meios.

Se no cinema português se oscila para produtos de “idiotice” para o grande público e cinema autoral apenas para os críticos, a TV vive de um problema semelhante. “Na ficção da televisão há demasiada coisa popular. Podem-se fazer coisas populares que sejam autorais e que surpreendam da mesma forma”, afirma.

Entre o drama, a comédia e o suspense (Afinal quem denunciou a Álvaro Vieira Branco?) de oito episódios, tal como Hitchcock, o autor surge na própria produção. Atente ao sexto episódio, quando numa cameo radiofónica, João Miguel Tavares comenta oficialmente um caso político e é, claro está, insultado por uma personagem. A oportunidade era irresistível.

O melhor elogio que podem fazer à série? “Pode ser uma ambição excessiva, mas nem que seja pelo lado da estranheza, gostava de ouvir coisas como ‘Nunca tinha visto isto cá’ ou ‘Isto não se parece com o que já vi na televisão portuguesa, está bem visto’”, explica.

Prisão Domiciliária, uma série de oito episódios de Patrícia Sequeira e João Miguel Tavares, estreia esta sexta-feira, dia 16 de abril, na OPTO. Marco Delgado encabeça o elenco de luxo com as participações de Sandra Faleiro, Filipe Vargas, Afonso Pimentel, Diogo Amaral, entre outros.

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