Ljubomir Stanisic é o mais recente convidado do programa de Daniel Oliveira, Alta Definição. O chef irreverente falou sobre a vida idílica na Bósnia, o período da guerra, o valor da vida e o peso da morte.

Perdeu metade da família na guerra na antiga Jugolávia. No braço tatuou a árvore da sua vida, mas como era ela antes da guerra? “A minha vida na Bósnia era linda e maravilhosa”, começa. “Andava sempre com uma bola de basquete. Íamos a montanhas buscar flores e passávamos muito tempo no mar, na pesca”, relembrando ainda o renascimento de Sarajevo para as Olimpíadas de Inverno.

Quando surgiu aquele que foi o conflito mais violento na Europa, depois da II Guerra Mundial, a finitude de tudo o que conhecia bateu-lhe à porta.

A minha infância morreu aos 14 anos. Morreu a bicicleta, a bola, foi-se tudo à vida. E com 14 anos não sabes nada, és um estúpido. Não há sentimentos. Quando ouves (exemplifica o som de tiros) não tens noção do que se passa à sua volta. Não tens noção se tens revolta, se queres ser guerreiro, se queres ter sentimentos, não fazes ideia de quem és, só queres sobreviver.

Largou tudo e partiu com um grupo para a montanha. Seis horas para subir. Lá alimentou-se de raízes, cogumelos e grãos de cevada que, moídos, lhe parecia ‘foie gras’. Lembra-se distintamente de parar e olhar para a cidade. “Estava a ser bombardeada, mas estava linda, parecia fogo de artifício”, diz reconhecendo em tenra idade, o detalhe da beleza na tragédia.

Esteve dois meses lá no cimo, onde as balas não escalavam a montanha; o medo que tinha era de ursos que podiam estar ali no mato. Sobre se chegou a usar uma arma, Lubo preferiu não falar sobre isso. Aos 14 anos “és soldado sem saber disso”. Saiu de lá porque “queria uma vida mais feliz”. Escolheu Portugal pela paz que lhe devolveu depois da morte da infância.

O luto fez da última vez que voltou ao país, fez as pazes e “terminou em felicidade”. Diz que a vida debaixo de fogo “vale zero”, mas hoje vive e disfruta. “ Apesar de terem sobrevivido, muitos ficaram em papa: não há progresso, não há futuro, não conseguem fazer nada”, confessa. Pela guerra esteve sem ver o pai durante mais de 10 anos.

Esteve preso na Croácia. “Nunca foi um pai carinhoso, nem teve tempo de me dar uma festinha e isso fez-me sempre a procurar o amor, a dar atenção aos meus filhos”, admite. Ljubomir é pai de Mateus (11 anos) e Luca (5 anos) que não o seguem na televisão.

Hoje, sem demónios, continua adorar o oxigénio que o perigo lhe envia. O amor é o que persegue, o rigor é o que o faz suar – “a exigência é uma guerra”.

Leia aqui, o que disse Ljubomir sobre quando dormiu na rua e foi à falência.